“A peça nasce do corpo de uma mulher que testemunha seu tempo” – entrevista com Silvia Gomez

Por Rodrigo Alves do Nascimento (colaborou Kil Abreu)

Foto: Bob Sousa.

Na fina percepção de Luiz Fernando Ramos registrada em uma crítica de 2008 para o jornal Folha de São Paulo, a dramaturgia de Silvia Gomez, naquele momento ainda no início de sua trajetória, parecia uma tentativa de “reinscrever a palavra na cena, reinventando-lhe o lugar”. O texto que dava material a esse juízo era O céu cinco minutos antes da tempestade, que entrara em cartaz sob direção de Eric Lenate. Ali, a autora já demonstrava o gosto por uma escrita que se lança em uma aventura com a linguagem, mas sem se render ao mero formalismo. As invenções dramatúrgicas que viriam a seguir – Mantenha fora do alcance do bebê (2015) e Marte, você está aí? (2017) – dão conta de uma espécie de realismo estranhado. Seguem na inquietação sui generis, não protocolar, diante do humano, traduzida nas formas de uma escrita a um só tempo familiar nos assuntos e produtivamente estranha nas estratégias. Nesta entrevista a Rodrigo do Nascimento, Gomez fala sobre seus laços com a dramaturgia moderna, de como avalia sua obra até aqui e sobre as relações entre Neste mundo louco, nesta noite brilhante com as aporias do Brasil atual.  

Cena Aberta: Uma mulher encontrada em estado de alucinação em uma rodovia abandonada após sofrer um estupro coletivo. O que a motivou tomar como base para sua peça essa situação ao mesmo tempo tão violenta e tão comum?

Quando comecei a escrever – os primeiros rascunhos vieram em 2015 – foi uma resposta artística do corpo de uma mulher diante dos casos de estupro e violência que vêm tomando nossas manchetes a cada dia. E os dados crescem, né? O que isso diz sobre nós? – me pergunto. Que sintoma de um contexto mais amplo – social e político – isso reflete? Vê-la em cena agora me faz pensar também em todas as outras violações simbólicas que temos presenciado. 


CA: O pano de fundo desta situação de violência é um céu estrelado. E a peça é cheia de momentos em que emerge um inusitado lirismo. Há aí a tentativa de gerar um estranhamento? O horror é sublimado pela poesia?

Vejo como uma noite escura mesmo, iluminada pelas presenças humanas ali, essas sim possibilidades de algum clarão. A ideia de brilho surge então quase como ironia, ou seja, apesar da situação que sabemos bem qual é e não negamos, será que somos capazes de “dar o golpe na realidade”, como dizia o Antunes Filho? Não é isso que a arte faz por nós? A poesia para mim é essa espécie de golpe, ou seja, quando a obra de arte tenta dialogar com a realidade sem se tornar refém dela, atravessando sua carne e expondo suas vísceras, tentando tocar nela por outras vias. Nesse sentido, o estranhamento é sim importante, mas não sublimando e sim colocando em contato direto com a síntese da questão por camadas que não alcançamos fora do poema. Quando escrevo, encaro o delírio poético como uma espécie de lucidez extrema, via de acesso ao que normalmente preferimos calar, palavras em fluxo perigoso. 

CA: Algo próximo ao que se convencionou chamar teatro do absurdo talvez tenha lugar nesta peça. Ao mesmo tempo parece haver em sua obra como um todo o gosto por situações de nonsense ou que remetam a circunstâncias em que uma imaginação fora da ordem opera, mas de uma maneira autônoma em relação a estilos de época. Fale-nos sobre o gosto por esses procedimentos e se de fato têm inspiração em alguma escola moderna da dramaturgia.

Sim, o teatro do absurdo dialoga diretamente com o meu modo de ver o mundo. Quando li Beckett pela primeira vez, tive um choque estético. O realismo fantástico também me pega (já adaptei Murilo Rubião para o teatro), assim como as obras do Surrealismo. Sua pergunta me fez pensar de repente numa fala do pintor Francis Bacon: “Que horror eu poderia criar para competir com o que acontece diariamente no mundo? Exceto pelo fato de que tentei pintar não o horror, mas imagens da realidade.” Escrita no pós-guerra, a peça Esperando Godot fala da experiência de presenciar a falência da ideia de humanidade diante do holocausto. Está lá a realidade, mas alcançada de outro modo, genialmente. 

Cena de Mantenha fora do alcance do bebê (2015), escrito por Silvia Gomez. Foto: Leekyung Kim.

Tenho gosto por tudo isso e ao mesmo tempo procuro ser fiel às minhas obsessões. Gosto dos artistas que são capazes de bancar suas obsessões, pois é nelas que mora sua singularidade. E isso tem um pouco a ver com desobedecer. Regras, expectativas, conceitos, o jeito da vez. Eu sou muito obedientezinha na vida e daí acontece a desobediência quando escrevo. É quando posso então delirar, existir plenamente, ainda que no simbólico. Estar “fora da ordem”, como você colocou na pergunta.

CA: Ao longo da trama percebemos seu desejo em desdramatizar o encontro das personagens, ainda que a ação gire em torno de um fato altamente dramático. Esta escolha é seguida de perto na encenação de Gabriel Fontes Paiva. É possível notar que ele dirige as atrizes solicitando delas que evitem apelos, o que leva a montagem a um teatralismo muito interessante e bastante evidente. Seria o drama uma armadilha para a representação do problema que se quer discutir?

Sim, o Gabriel Fontes Paiva acertou muito no tônus da cena e sou muito grata a isso e a sua direção, que acho magnífica, capaz de profundo diálogo com o texto que, se fosse feito de modo dramático, escorregaria na comunicação, afinal, o tema, por si, é trágico. A questão era como fazê-lo de forma a alcançar pontos de acesso, plataformas de onde a gente pudesse observar o impasse sem perder a capacidade de refletir sobre ele. Preciosas atrizes, Débora Falabella e Yara de Novaes também criam isso de forma milimétrica. Então, nos momentos em que a emoção vem, mesmo sabendo que estamos no teatro, a sensação é estranha – mais ou menos como ter esperança sem saber se de fato vai amanhecer.

CA: Salvo engano uma parte do sentimento da peça faz diálogo com a experiência existencial das mulheres. Haveria então uma camada do espetáculo que apenas as mulheres poderim acessar de fato? Como tem acompanhado as leituras da cena pela plateia durante a temporada? 

Quando escrevi, estava partindo de um incômodo localizado. Mas quando o tempo passa, é como se a gente, já distante da obra, pudesse entender seus outros significados, desejos. Para mim, ela fala também da ideia mais ampla de violação, das muitas que a humanidade já viveu e das que vive hoje. E sobre existir, essa experiência mais radical de todas. E das violações diárias neste KM 23, Brasil. Pensar a violência contra a mulher como um complexo sintoma de algo maior. Não posso negar que a peça nasce do corpo de uma mulher que testemunha seu tempo. Não quero negar, quero assumir esse corpo, estar ao lado dele, que é também o corpo de muitas outras, das nossas antepassadas que calaram, das que não sobreviveram, das que virão e poderão falar. O silêncio é central na história da mulher. Falar é uma espécie de cura e caminho. Tenho recebido depoimentos tocantes de mulheres, para as quais a peça foi dolorida, mas catártica, muitas usam a palavra libertadora. Quem precisa calar uma violência sabe o que é de repente ver iguais falando sobre ela, e sentir que pode também falar. Apenas por isso acho que já valeu. Mas tenho recebido retorno de muitos homens, alguns muito emocionados porque justamente foram capazes de adentrar também, além do tema em si, o aspecto existencial da proposta, aquele corpo visto como sua própria humanidade. A ideia de cair e precisar se virar para conseguir se levantar, “keep walking”, como diz a Vigia. Quem nunca? Enfim, procuro escrever de forma aberta, sem restringir significados, deixando espaço para que quem assiste possa ser também criador, usando sua sensibilidade e repertório. E não creio que um homem sensível e inteligente encare esta peça como um espaço onde só mulheres conseguem adentrar. Assim como a literatura escrita por homens, na qual nós mulheres sempre circulamos. 

Cena do espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Foto: Sérgio Silva.

CA: Para você o que esta peça diz sobre o Brasil do presente?

Feminicídio, misoginia, violência. Violação de liberdades, direitos, humanidade. Quando escutamos com normalidade discursos de ódio. Quando assistimos às mortes diárias da nossa população pobre e negra sem parar tudo, no que nos tornamos? Quando vemos educação, cultura, ciência e Amazônia serem massacradas por quem deveria defendê-las, como ficamos? A lista é imensa, a gente sabe. 

CA: Comente: “Às vezes o escritor tem de quebrar o espelho — porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara” (Harold Pinter).

Adoro essa frase e a uso como referência nas minhas aulas. Nesse discurso do Pinter para o prêmio Nobel, ele nos pergunta o que é verdade e o que é mentira. A verdade para o artista é inalcançável, mas nunca cansamos de persegui-la. E para caminhar até ela, precisamos enfrentar nossas próprias contradições, quebrar o espelho, enfrentar nossas sombras também. Só assim acho que seja possível tentar escrever a complexidade humana. Tentar, veja bem, porque impossível. Os grandes artistas enfrentaram essa contradição, fica claro na obra quando estamos diante dela. Os personagens são complexos, luz e sombra. A verdade é aquela linha do horizonte de um oceano, impossível. Dói e consola ao mesmo tempo, é estranho. Mas, diz Pinter, é bom lembrar: para o cidadão, é dever procurar a verdade, não aceitar que o esquema dominante e a política dada massacrem nossa pequena, frágil e, por isso mesmo, preciosa humanidade.

About Rodrigo Alves do Nascimento

É crítico, tradutor, professor e educador popular. Tem graduação em Letras pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Há anos dedica-se à pesquisa dos teatros russo e brasileiro. É autor de "Tchékhov e os Palcos Brasileiros", publicado pela Editora Perspectiva em 2018.

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