Um corpo no asfalto dos séculos

Crítica ao espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante, do Grupo 3 de Teatro.

Por Rodrigo Nascimento

Cena do espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Foto: Sérgio Silva.

Quais as primeiras palavras de uma mulher que sofre um estupro coletivo e é encontrada em uma rodovia abandonada? O que pode uma vigia, também mulher, fazer de imediato ao encontrá-la? Há consolo possível para alguém que conviverá com a memória da violência pelo resto da vida? Que fio invisível liga o trauma desta jovem ao de milhares de mulheres, do passado e do presente, espalhadas pelo mundo?

Essas perguntas rondam o espetáculo “Neste mundo louco, nesta noite brilhante”, do Grupo 3 de Teatro, escrito por Silvia Gomez e dirigido por Gabriel Fontes Paiva. Mas debruçar-se sobre elas não significa alcançar uma resposta; pelo contrário: o espetáculo é a tentativa de representar a perplexidade diante do absurdo.

Feita em uma zona permanente de experimentação, entre o distanciamento épico e o delírio surrealista, a direção de Gabriel Fontes Paiva testa os limites de qualquer sentido ou sensação, revelando as dificuldades de se colocar em cena o próprio trauma. Não há receita para livrar uma mulher de conviver com a dor da violação. O palco, com cenografia de André Cortez, torna-se espaço onde se testam diferentes formas de elaborá-la. O telão ao fundo – centro de um jogo imagético que ora ironiza, ora mergulha a cena num deleite onírico – projeta céus estrelados e prosaicas frases motivacionais. A banda de mulheres Las Majas é convocada aqui e ali para introduzir ritmos que brinquem, estimulem ou anestesiem o corpo diante da dor. Ao mesmo tempo, a iluminação alterna a penumbra do abandono com a luz esperançosa de uma pista de pouso. O conjunto se assemelha a uma oficina, com aparatos espalhados, DJs, uma banda, lâmpadas e um trecho de rodovia ao centro, que é ora o escorregador de um corpo em delírio, ora a pista para o avião que socorrerá o corpo machucado. Nada de ilusão estável: tudo cai numa dinâmica insistente de substituição e ironia, como se não fosse possível se agarrar a nenhuma das saídas que nos dá esse nosso mundo louco.  

Cena do espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Foto: Sérgio Silva.

A dramaturgia, que historicamente sempre foi um ponto de partida decisivo para as produções do Grupo 3 de Teatro, traz uma situação-limite: a vigia do KM 23 (Yara de Novaes) passa as noites a cuidar de um local que é uma espécie de rota de fuga, um ponto de desova no qual terminam os corpos de mulheres vítimas da violência.  A vida ali a tornou “transparente”, mais próxima da barbaridade (“Eu já morri mil dias, mil vezes neste mundo louco de mil barcos naufragados.”), mas sua disposição etérea e onipresente de fada ou heroína torna-a incapaz de ser indiferente àquele caso. O jogo constante, que vai da frieza à ternura, do distanciamento sociológico à preocupação maternal, é traduzido por Yara de Novaes em uma atuação milimétrica, que passa de um estágio a outro com sutileza e potência.   

Sua tentativa é a de fazer com que a jovem L. (Débora Falabella) fale sobre tudo o que aconteceu, recomponha os fatos, lembre fisionomias e nomes. Mas o diálogo lógico resulta impossível – a alucinação e a dor são simultaneamente entrave e exacerbação à última potência do real. Nesse jogo, a atriz demonstra incomum capacidade para expressar todas as nuances de um movimento que começa com a violência física, passa pelo prazer lisérgico de um corpo dopado pelos remédios e se joga por fim em um esforço descomunal de superação. Em meio a essa aventura psicológica e física, resta à vigia proteger aquela mulher dos vultos que ainda rondam (rondam agora ou enquanto houver o desejo de dominação masculina): “Eu vou atravessar esta noite com você (…). Mesmo que eu precise fazer um avião pousar bem no meio desta merda”.

O material é trágico. No entanto, o espetáculo não tem interesse em reproduzir nem a estrutura e nem o tom de ultimato da tragédia. Ao invés de se render a uma realidade dolorosa e avassaladora, transforma o horror em matéria de reflexão, ao mesmo tempo atravessada pelo lirismo e pela ironia. Dramaturga e diretor invertem a expectativa de quem procura ali a representação apelativa, regada a dor e lágrimas, de um drama pessoal. Ambos parecem saber que o episódio logo cairia na dinâmica falsamente sentimental do sensacionalismo – a mesma que transforma as dores íntimas em espetáculo e mercadoria. Do mesmo modo, a peça deixa à deriva quem ali busca um panfleto com respostas contra o grande drama da violência, pois nesse gesto há o risco de converter a singularidade daquele corpo de mulher, agora cruzado por memórias e pela monstruosidade da dor, em objeto impessoal de uma luta.

Cena do espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Foto: Sérgio Silva.

“Neste mundo louco, nesta noite brilhante” está em outra chave. Prefere dar um passo atrás e revelar um incômodo questionador: “Por que tudo isso é assim?”. Se na vida é preciso lidar com a estatística de que no Brasil a cada 10 minutos uma mulher é estuprada e se muitas mulheres precisam enfrentar a experiência traumática de ter seu corpo violado, neste espetáculo as personagens se dão o direito de suspender as respostas. Naquela noite escura, elas mergulham em um delírio absurdo na forma, pois só o absurdo parece acolher a precariedade de vidas embrutecidas e mutiladas.

Tal disposição que flerta também com o fantástico é marcante na dramaturgia de Silvia Gomez. Está nos debates sobre a medicalização do cotidiano em “O céu cinco minutos antes da tempestade” (2008), na reflexão sobre a normatização da vida em “Mantenha fora do alcance do bebê” (2015) e nos impasses da radicalização dos discursos ideológicos em “Marte, você está aí?” (2017). E nesta peça – um ponto alto da dramaturgia de Silvia -, o tom absurdo emerge como um tipo de resposta artística, como se aquelas criaturas não pudessem compreender o que passam se estiverem mergulhadas na comunicação simples e direta do drama. Em “Neste mundo louco, nesta noite brilhante”, elas tornam o horror estranho em todos os níveis. O encontro em si é insólito (“Por que uma mulher como você está aqui a esta hora tentando me ajudar?”), os diálogos estão sempre à beira do colapso e a vigia insiste na constante tipificação da situação: “Sempre chegamos a essa parte”. Antes que tudo resvale na comoção e no sentimentalismo, a atriz-vigia aciona a banda de mulheres (o grupo Las Majas) para que toque algo mais animado. Antes que a dor se torne norma, imagens de coelhos são invocadas ou frases motivacionais (“Keep walking”) são ironicamente projetadas no telão. É preciso se agarrar a alguma ilusão, mesmo àquela que se apoie na dimensão mais chã de um post motivacional de Facebook.

Aqui, a direção de Gabriel Fontes Paiva é renitente na teatralização, interrompendo insistentemente o fluxo dramático, como se a reflexão dependesse de uma quebra frequente do diálogo, o que dá a impressão de que a forma se esvazia e se volta a si mesma. Ainda assim, tais quebras e misturas, no jogo constante entre lirismo e humor ácido, compõem uma forma que luta para alcançar no delírio poético e nos golpes de razão analítica momentos de lucidez necessária. É ela que expõe a frio a constatação de que nesse mundo não há heróis, e que noções como “justiça” e “humanidade” são idealizações risíveis que não impedem que o horror aconteça todos os dias. Resta a experimentação com o corpo de duas mulheres – as únicas capazes de tornar aquela escuridão uma noite brilhante. Elas se fortalecem e se convencem a continuar, no palco e na vida: “vamos até o final da peça, ok?”.

Cena do espetáculo Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante. Foto: Sérgio Silva.

A jovem L. não rememora o nome ou a fisionomia de seus agressores. Afinal, isso importa diante do trauma? Se importa nomeá-los, é preciso nomear todos os outros: de Zeus, estuprador de Lucrécia, aos bandeirantes, estupradores de índias e negras escravizadas. Das mulheres gregas às brasileiras de hoje, são todos um mesmo “corpo abandonado no asfalto dos séculos”. Por isso, não deixa de ser significativo que nos momentos iniciais, quando o público entra no teatro e as atrizes e musicistas se aquecem numa luta marcial, cada uma das mulheres em cena se apoie na sororidade para que o espetáculo prossiga. Parecem reconhecer o horror do que está para ser contado, entreolham-se e seguram-se com força pelos braços. Ali temos não mais um aquecimento, mas a peça invadindo a vida com todo seu absurdo, algo que Yara de Novaes e Débora Falabella realizam de modo poderoso: “Pronta?” / “Não sei.” / “Acho que não vou conseguir não.” / “Vai sim. Vai conseguir sim.”

É esse gesto precário, mas de algum modo decidido, que atravessa toda a encenação. É ele que torna possível, mesmo diante da dor da violência, projetar uma saída. É ele que dá forças à vigia e à moça violentada (às atrizes? Às mulheres na plateia e no mundo?) para que no último minuto, quando tudo parece desabar, ambas possam se erguer. Por isso as cortinas não se fecham sem que antes o grupo Las Majas entoe uma canção. Afinal, “se eu for capaz de cantar uma canção de amor neste mundo louco, nesta noite brilhante, então tudo será possível, até dar o fora daqui.”

Neste Mundo Louco, Nesta Noite Brilhante

Com Grupo 3 de Teatro. Sesc Consolação | Teatro Anchieta. Até 06/10, sexta a sábado, às
21h, e domingos, às 18h.

Nova temporada: Teatro Municipal João Caetano – Rua Borges Lagoa, 650, Vila Clementino. De 10 a 20 de outubro, de quinta a sábado, às 21h; e domingo, às 19h. Ingressos: grátis, distribuídos uma hora antes Duração: 90 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos .

FICHA TÉCNICA:
com Débora Falabella e Yara de Novaes. Texto: Silvia Gomez. Direção: Gabriel Fontes Paiva
Banda Las Majas: Mayarí Romero, Lucia Dalence, Lucia Camacho e Isis Alvarado, além do diretor Marvin Montes. Cenografia: André Cortez. Vídeo Cenário: Luiz Duva. Figurino: Fabio Namatame. Iluminação: Gabriel Fontes Paiva e André Prado. Trilha sonora original: Lucas Santtana e Fábio Pinczowisk. Assistência de direção: André Prado e Ana Paula Lopez. Assistente de Cenário e produção de objetos: Carol Bucek. Assistente de Figurinos: Juliano Lopez. Preparadora Vocal: Ana Luiza. Preparadora e direção de movimento: Ana Paula Lopez. Oficinas: Dione Carlos. Workshops: Maria Thais. Direção de Palco: Diego Dac. Operação de Luz e vídeo: André Prado. Operação de Som: Mana Maia. Camareiro: Jô Nascimento. Design de Som: André Omote. Cenotécnicos: Alexandre da Luz Alves e Murilo Alves. Assistência de Produção: Cadu Cardoso e Letícia Gonzalez. Assistente administrativo: Rogério Prudêncio. Assessoria de Imprensa: Pombo Correio. Identidade Gráfica: Patrícia Cividanes. Fotos de material gráfico e divulgação: Fábio Audi. Fotos do espetáculo: Sergio Silva. Gestão de Projeto: Luana Gorayeb. Direção de Produção: Jessica Rodrigues e Victória Martinez. Produção: Contorno Produções e Fontes Realizações. Grupo 3 de Teatro: Débora Falabella, Gabriel Fontes Paiva e Yara de Novaes. Realização: 9º Prêmio Zé Renato, Secretaria da Cultura.

About Rodrigo Alves do Nascimento

É crítico, tradutor, professor e educador popular. Tem graduação em Letras pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Há anos dedica-se à pesquisa dos teatros russo e brasileiro. É autor de "Tchékhov e os Palcos Brasileiros", publicado pela Editora Perspectiva em 2018.

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