“O amor exala o perfume da utopia” – Entrevista com Luis Mármora

Por Kil Abreu

O ator Luis Mármora. Foto: Divulgação

Uma narrativa sobre a paixão resistente, O amor nos tempos do cólera (1985), de Gabriel García Marquez,conta  sobre um casal – personagens inspirados nos pais do autor – que se conhece e se relaciona através de cartas em uma cidade caribenha na passagem do séc. XIX para o XX. Um telegrafista, a filha de um comerciante. Separados, guardam-se por mais de cinquenta anos até o reencontro na maturidade.  Adaptado para o teatro pela dramaturga Ana Roxo e representado por Luis Mármora e Cybele Jácome, com direção de Marat Descartes, o espetáculo Gardênia é uma bonita encenação, com longevidade também fora da ordem. Completa agora dez anos em repertório.

O romance do escritor colombiano traz  o cólera como emblema tanto para a febre que toma os apaixonados quanto para a desoladora situação de penúria que abraça sobretudo os empobrecidos. Embora na peça este contexto seja ainda mais lateral que no livro, certamente ganha contorno, no Brasil de 2019, o contraste entre o empenhado tempo de espera para a realização do que parece impossível e a afirmação – esta mais evidente – da desesperança distópica. São estes os temas da entrevista com o ator Luis Mármora.

Cena Aberta: A história de Florentino Ariza e Fermina Daza é a história de uma paixão interditada, que, no entanto, se mantém acesa por décadas. O espetáculo feito por você e Cybele Jácome com direção de Marat Descartes completa agora também uma década. Isso num tempo de produções fugazes, que por um ou outro motivo vêm e vão em dois, três meses. A que você credita a empatia com o trabalho, a ponto dessa sobrevivência incomum?

Costumamos dizer que nossa vontade é de apresentar Gardênia até o tempo em que Cybele e eu tenhamos as idades dos protagonistas quando se reencontram na velhice. Isso nos coloca numa curva de quase trinta anos pela frente. A peça foi meu primeiro trabalho autoral ao sair da Companhia São Jorge de Variedades e nasceu de uma equipe incrível, unida pelo afeto, na tarefa gigante de transpor o famoso romance para a cena.  Essa origem no afeto é algo bem precioso porque mantém a chama viva. A peça estava ali quietinha e agora chego a acreditar que a própria distopia destes nossos dias acabou por evocar uma nova primavera com este amor redivivo.

Cena de Gardênia. Foto: Leandro Lima.

CA: Em dez anos muita coisa mudou em termos de sociabilidade na América Latina. Parte dessas mudanças deve-se às novas formas de comunicação. Por exemplo, redes sociais baseadas em tecnologia de rápida interação, mas que são espaços para o exercício de formas de desapego igualmente velozes. No espetáculo, o que se apresenta são tecnologias “obsoletas”,  mas nelas há a expectativa talvez de que as coisas perdurem. Nelas, há a  permissão do tempo. Este contraste colocou a encenação em uma condição de paraíso perdido das possibilidades de encontro? O que Gardênia, dos seus meios “antiquados” teria a dizer sobre a época das redes sociais?

O tempo das coisas é o tempo que damos uso ou que nos dedicamos a elas. Não são obsoletos os retroprojetores, as vitrolas, os cenários ou meu liquidificador de vinte anos, se eu estiver dando uso a eles. O tempo desta peça está virando a curva dos dez anos e nos dedicamos pra que ela siga. Como o tempo do amor destas personagens que dura toda uma vida ou o tempo imenso da existência do teatro. Existem tantas coisas além de um smartphone… Acho que a peça reacende um lugar muito especial na gente. É como se eu, com dez anos, estivesse com a minha prima no quarto criando números para o disco da Arca de Noé do Vinicius. Gardênia leva a gente pra uma cumplicidade deste tipo e que todo mundo reconhece como algo seu, próprio. Neste sentido acho que sim, que o espetáculo é este paraíso do encontro.

CA: Ainda sobre isso, como tem sido a reação do público diante dessa história de amor num tempo que já não é o do cólera, como no romance de García Marquez, mas sim da cólera quanto ao momento atual das relações sociais no Brasil, na América Latina?

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” Dá-lhe Guimarães!!! Tem sido assim. A peça gera leveza, esperança, respiro pr’essa asfixia toda.  Parece ter mais a dizer do que tínhamos imaginado de início. O ódio e a ignorância enaltecidos numa sociedade que segue a passos largos para a destruição, tem tornado nossos dias exaustivos e expor esta realidade é absolutamente urgente na arte. É ATUAR neste tempo e espaço. Mas de alguma maneira, esta história firmada na curva do tempo, nos enche de confiança pois nos coloca em contato com algo muito essencial de Brasil e de América Latina, e mais que isso, com algo muito especial de nós mesmos.

E assim se passaram dez anos para vocês também, criadores e criadoras desse espetáculo. Tantos caminhos diferentes, e voltam ao mesmo trabalho. É um ponto comum de empatia que o teatro ofereceu?

Acho que sim, Kil. E também acho que nisso mora o sentido desta retomada. É o resgate de algo precioso: este amor que já tem exalado o doce perfume da utopia.

Serviço:

Gardênia tem apresentações às Terças, até 29/10, no Teatro West Plaza/ Sala Laura Cardoso – Avenida Antártica, 408 – Água Branca – São Paulo – tel: (11) 4858-1421

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