A categoria é… Pose!

Por Kil Abreu

Elenco de Pose.

“E você achava que viver à margem da sociedade era um passeio no parque, um mar de rosas?”. A pergunta da stripper-travesti Angel (Indya Moore) indica a Stan (Evan Peters), um Yuppie casado e infeliz que busca entender o próprio desejo, a placa de “bem-vindo à realidade”. Em letreiro neon. E, no entanto, em Pose, a série apresentada agora pela rede de streaming Netflix, há,sim, além da dureza de uma Nova York hostil a pessoas trans, um notável contorno de fantasia. O necessário tanto para por de pé o argumento quanto para torná-lo empático a um público massivo. Ainda que não seja uma experiência inovadora com a linguagem, é impossível não se deixar cativar pelas idas e vindas, terríveis, felizes, melancólicas ou francamente idealizadas de Blanca (MJ Rodriguez), Elektra (a maravilhosa Dominique Jackson) e os seus e as suas. Pose é como um resumão de questões caras à vida trans nas últimas décadas, mas preparado com delicadeza, humor e coragem.

O tema das famílias fora da ordem ganhara notabilidade no já lendário Paris is burning (1990), documentário escrito e dirigido por Jennie Livingston que ilumina a cena “voguing” americana dos mesmos anos 80. Pose revisita o “sub-Harlem” também sob a ideia da relação, nada acidental, entre comunidade e família. A série de Ryan Murphy, Steven Canals e Brad Falchuk começa ambientada em 1987 e alinhava, por um lado, meia dúzia de boas histórias de gays (assumidos ou não), travestis e mulheres trans, a maior parte moradora do andar de baixo na sociedade americana. É a hora (e segue sendo) da ampla discriminação das travestis mesmo por pessoas gays E é parte do curso de acontecimentos que levara ao momento mais barra pesada da epidemia.

Mas esse arco – o da incidência do preconceito, da desassistência – não é genérico, tem recorte racial e de classe bem definidos. Desenha-se preferencialmente sob as narrativas de LGBTQ’s+ latinxs e negrxs. E a contraface que sai dali é alimentada fortemente pelas mesmas pessoas que fizeram desta paisagem humana o lugar de reconhecimento da atitude política, riscada no chão da história nos anos seguintes. A cultura dos ballrooms nova-iorquinos da época, que os episódios refazem, é o espaço do prazer dos corpos e das atitudes que se lançam no exercício da liberdade. As histórias contadas ali nos comovem não só pelo flerte com o melodrama, muito menos porque sejam retratos terminados, e sim por representarem forças vitais do comportamento, da estética, da política, que não são passado, estão em pleno impasse e movimento. Coisas atualíssimas.

Convidamos para escrever sobre estas e outras questões da série, a dramaturga Ave Terrena e o ator e dramaturgo Ronaldo Serruya. Seguem os relatos.


Amor e Ferocidade *

Ave Terrena

(Contém spoilers)

Billy Porter em Pose.

Ao assistir a primeira temporada da série “Pose”, fui atravessada pela representatividade trans profunda, e não demagógica, na composição do elenco e das personagens. Isso me fez pensar na falta de referências a pessoas trans / travestis no teatro e no audiovisual, e mais ainda: na ausência de trabalhos que valorizem a humanidade das vidas dissidentes, sobretudo as trans e negras. É quase impossível encontrar uma série como essa, que enxerga ao mesmo tempo a violência e a superação, as contradições e a beleza dos afetos que mantém as pessoas vivas mesmo quando todo o resto do mundo é só negação, e ainda por cima sem cair no determinismo e nem no culto ao indivíduo self-made super hero.

Mesmo com tanto conteúdo de vidas marginalizadas, a linguagem do roteiro dá conta de se construir dramaticamente, com personagens muito fortes e relações convincentes, de forma bem tradicional, praticamente novelística. Entre os temas trabalhados pelo roteiro estão o amor versus a ferocidade, o sonho versus a realidade, a autenticidade versus o padrão… Todas essas oposições não poderiam ser consideradas binárias, ou romantizadas? E se forem, há algo de ruim nisso, considerando o momento histórico? Qual o romantismo reservado a nós, pessoas trans /travestis, nas histórias que correm por aí?

Muito se fala que o amor é um privilégio cisgênero, mas Pose nos apresenta uma variação possível desse amor, que é exaltado por Blanca, mãe da House of Evangelista. No início do enredo, ela descobre que é soropositiva, no ano de 1988, quando o HIV ainda era considerado uma sentença de que a pessoa “iria morrer aos poucos”, nas palavras dela própria. Mas a série faz o movimento contrário do anunciado. Numa realidade que poderia tomar a morte como parâmetro, a vida dos corpos precarizados é progressivamente afirmada, enquanto a hipocrisia e fragilidade dos personagens brancos e cisgêneros é revelada em toda a sua perversidade. Não à toa, eles trabalham na corporação de Donald Trump, atual presidente dos E.U.A. Na consolidação da rede de afetos e solidariedade que mantém a integridade
física e moral das pessoas a que são negadas a direitos básicos de um ser humano (moradia, alimentação, trabalho, educação pública, saúde etc,), vemos se formar outros tipos de família que não as já conhecidas. E nesse caldo vêm também conflitos cuja resolução ainda se pauta num modelo de afetividade cisgênera. O tom meloso da cena em que a irmã transfóbica devolve um livro de receitas, pedindo desculpas por ter expulsado Blanca da cerimônia de luto pela morte de sua mãe, e o próprio tratamento dado à figura da mãe, ligando-a ao trabalho doméstico de cozinhar, lavar louça, cobrar os filhos de arrumar o quarto, etc., soam como resquícios do imaginário de uma família padrão hetero-cisgênero.

Pose ainda propõe o amor como redenção, mas um outro tipo de amor, que, apesar de se basear em situações um tanto idealizadas, resulta em cenas comoventes, que só têm essa força porque se baseiam em clichês, e expandem seu sentido. Um exemplo é o desfecho da 1ª temporada, quando Blanca é coroada por sua comunidade na Princess Ball e as personagens jantam juntas num momento de glória. Um instante de alegria que afronta as estruturas opressoras: celebrar a vida, nesse contexto, pode ser revolucionário. Porque as narrativas são carregadas de dor e, além de chorar pela dificuldade imposta na ficção e na realidade a pessoas marginalizadas, também choramos por sentir o poder da representatividade no drama, que ultimamente andava tão esvaziado de conflitos reais e tensões construtivas. Nunca tínhamos visto um clichê bem feito como esse nas séries de ficção, abrindo espaço para os corpos trans falarem por si.

O roteiro de Pose transita o tempo todo entre as noções de realidade e sonho, sendo que é pejorativo o seu ponto de vista sobre o “mundo real” do capitalismo de empresários, enquanto é positiva a visão sobre as balls, que em outras circunstâncias poderiam ser consideradas uma “ilusão” e não uma realidade. As pessoas intituladas humanas pelo CIStema, que vivem nos altos prédios e não no “submundo”, são, capítulo a capítulo, reveladas em suas máscaras, terminando no isolamento e incomunicabilidade. Esse percurso é acompanhado pelo fortalecimento do senso de coletividade na comunidade LGBTQIA+, que não se faz sem tensões, como vemos na batalha final entre duas houses que simbolizam diferentes posturas diante da precariedade. Enquanto a House of Evangelista repete a palavra “kindness” incessantemente (que a legenda traduz como “gentileza”, mas que pode ser entendida como “generosidade”, “solidariedade”, ou simplesmente “o bem”), na House of Ferocity as mães, Candy e Lulu, são combativas mesmo dentro de ambientes que poderiam ser considerados seguros, além de impiedosas com seus filhos.

Dominique Jackson em Pose.


Os dois grupos vieram de dentro da House of Abundance, cuja mãe, Elektra, sustentava a todes e reinava absoluta nas balls, mas era dependente financeiramente do mega empresário com quem vivia um amor sigiloso. Depois que ela realiza o sonho da cirurgia de redesignação sexual, é preterida por outra (a gente sabe que muitas vezes eles querem mesmo é mulher de neca), e, a partir daí, seu império, seus confortos e seu modo de reinar já não são mais possíveis, apesar da satisfação com o próprio corpo. Falida, ela volta a morar na rua, mas Blanca a encontra e a abriga na House of Evangelista, onde “todas as almas errantes são recebidas”, desde que sigamprincípios morais (quase moralistas) rígidos: estudar, trabalhar e não traficar drogas.

Dessa forma, Elektra, que é mãe de Blanca, e que havia negado a benção a ela, é acolhida pela filha, modificando seu modo de agir e de se posicionar diante das outres, passando, inclusive, a trabalhar como hostess em um restaurante de luxo. Na trajetória dessas personagens, o enredo sugere a saída pela generosidade, e não pela competitividade. Mas essa é só a primeira temporada, então todas essas relações ainda podem se tornar mais contraditórias. Mas, independente disso, é inegável que em Pose as pessoas transexuais, travestis e gays, as pessoas negras, as que vivem com HIV e pobres têm sua vida exaltada, destacando-se sua sensibilidade, mesmo com toda a brutalidade à qual são sujeitadas. A luz e a direção de arte são um deleite para os olhos, e, além de serem belas, constituem linguagem. A fotografia, que
é opaca nas ruas e na vida cotidiana, nas cenas das balls é hipercolorida e exuberante, criando outra dimensão, em que a singularidade e o encanto de cada ume brilha nos holofotes, ainda que haja pouquíssimos recursos materiais disponíveis pras personagens empobrecidas se produzirem. Essa é uma vertente poderosa da estética da precariedade nas superproduções audiovisuais, que não se faz de rogada, e, sim, valoriza a beleza e a feshação. O patamar de qualidade artística no tratamento de narrativas trans / travestis subiu, até mesmo no mainstream, onde é tão difícil quebrar o cerco transfóbico elitista.

O assunto que não vemos sendo debatido é a violência policial. Na mesma década de 80, em São Paulo, aconteciam as operações Tarântula, Limpeza, Arrastão etc., que tinham o objetivo de prender e exterminar as travestis que dependiam da rua para trabalhar. Aqui, a ditadura institucionalizou a violência transfóbica e racista, não sem enfrentar resistência organizada das oprimidas. Os EUA também tiveram rebeliões, como a de Stonewall em 69, e com certeza outras, ainda que eu não as conheça. Mas, de uma forma ou de outra, Pose é um tapa na cara de muita gente, despadronizando a ideia de HUMANO e demarcando um território de socialização comum, em que as sujeitas protagonistas são menos individualistas, e, mesmo não
sendo heroínas no sentido clássico, são heroicas por existir e resistir num mundo adverso, encarnando, assim, o sentido do seu próprio tempo.

*Impressões a partir da primeira temporada da série.

Uma aula sobre representatividade

Ronaldo Serruya

Indya Moore e Evan Peters em Pose.

Pose, a série idealizada por Ryan Murphy e que se debruça sobre a cultura ballroom de Nova York dos anos 80 do século passado, é um acontecimento inédito em vários sentidos.

De cara, redimensiona a discussão sobre a questão da representatividade nas artes, trazendo o maior elenco trans que se tem notícia na indústria do entretenimento.

É preciso entender a representatividade como algo que diz do corpo presente e de tudo o que pode um corpo quando ele se presentifica. Quando grita: estou aqui. Quando invade nossas retinas e exigem: me vejam! Essa opção ético-estética opera milagres de deslocamento, sendo um dos mais importantes o de conferir a estes corpos estatuto de existência. Então fica claro a importância para os corpos dissidentes, a quem foi tirado por meio de alguma violência o simples direito de ser, serem representados como de fato são, sem simulacros de qualquer ordem.

Só por isso Pose já seria histórico.

Mas a série vai além.

Tendo como um dos eixos narrativos a epidemia de AIDS que eclode no período, a série inova também ao contá-la a partir da perspectiva e vivência dos corpos pretos.

A extenuante representação do HIV/AIDS, obcecada pelo recorte apocalíptico e trágico do boom da epidemia e que sem dúvida ajuda na manutenção de um imaginário estigmatizante para os corpos positivos, sempre foi contada pela ótica do corpo branco gay cisgênero.

MJ Rodriguez e Angel Bismark Curiel em Pose.

Pose muda essa foco, o que é de fato importantíssimo se levarmos em conta que falar de HIV/AIDS hoje é falar de vivências diferentes a partir de recortes de raça, classe e gênero. A chamada interseccionalidade.

E mesmo sendo mais uma narrativa historicista sobre HIV/ Aids, os roteiristas da série optam por hibridizar o enfoque, optando por recortes que pontuam tanto o ativismo do ACT UP de NY, reproduzindo uma de suas ações mais contundentes contra a Igreja Católica no período, quanto momentos de leveza, humor e sobretudo VIDA em meio ao luto geracional perpetrado pela doença.

Isso já é muito mais do que a imensa maioria de obras audiovisuais sobre o HIV fez em 40 anos da história da epidemia.

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