Tecendo a manhã: o que é?

Vivemos agora juntos e juntas as consequências da pandemia. Ela traz reverberações de toda ordem – pessoais, sociais, políticas, estéticas. Misturam-se em nós a vontade de expressão do sentimento íntimo com a necessidade de ouvir o que diz a ciência. E é assim, diante deste novo desafio do sobreviver, que o velho João Cabral de Melo Neto nos chega, como uma bonita referência.

Tecendo a manhã é o título de um dos seus poemas mais conhecidos. Nele, a lírica é tecida com os fios da razão. O interesse por apontar através da poesia um caminho justo para a vida em sociedade define o poema e boa parte de sua obra. E foi o que nos inspirou a convidar artistas de várias linguagens, críticos, gestores, pessoas da cultura, a responder, em vídeos breves, à pergunta: o que se pode dizer de mais caro aos outros neste momento-limite, a partir do isolamento que o vírus impõe?

Pedimos que gravassem suas respostas singulares e nos enviassem. Estimulamos que essas falas pudessem ser também citações ou lembranças, de livre escolha. Como no poema, intuímos que “um galo sozinho não tece uma manhã”. Do quarto, da casa, dos quintais isolados de cada um, de cada uma, pedimos um canto, que por sua vez chame outro “que apanhe esse grito” e o encaminhe, e assim por diante, para que a manhã “se vá tecendo entre todos os galos”.

CENA ABERTA publicará os vídeos às segundas, quartas e sextas-feiras. Agradecemos muitíssimo a todos e todas que puderam e quiseram responder ao nosso chamado. Nossa intenção é construir com essas vozes ora isoladas não só um coro, como também um registro, um documento crítico-afetivo sobre o presente.

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.345.

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