Tecendo a manhã – Renato Borghi

Vivemos agora as consequências da pandemia. Isolados em casa, misturam-se em nós a vontade de expressão do sentimento íntimo com a necessidade de ouvir o que diz a ciência. Como no poema Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto, em que a lírica é tecida com os fios da razão, nos irmanamos com a ideia de que será preciso unir os cantos de cada um – a partir de nossos quartos, casas e quintais – para forjar uma nova realidade. Convidamos pessoas da cultura e artistas de várias linguagens para gravar um vídeo curto, dizendo aos outros aquilo que lhes parece ser mais importante diante desta situação-limite.

O veterano Renato Borghi, um dos atores mais importantes da cena brasileira nos últimos sessenta anos, nos mandou sua fala para o TECENDO A MANHÃ. Ele traz um trecho de “Conversas de Refugiados”, de Brecht, colhido no espetáculo mais recente que levou à cena: “O que mantém um homem vivo?”. O mundo na perspectiva dos emigrantes, dos deslocados, atualiza questões que nos parecem muito atuais em tempos de pandemia e de injustiça generalizada: qual o sentido de nos vangloriarmos do heroísmo e de elogiarmos as grandes virtudes em uma terra condenada pela desigualdade? O que nós, pessoas comuns, podemos fazer?

RENATO BORGHI (Rio de Janeiro, 1937). Um dos fundadores do Teatro Oficina, em 1958, juntamente com José Celso Martinez Corrêa. Ali realizou trabalhos como Pequenos Burgueses, Andorra, Galileu Galilei e Na Selva das Cidades. Nos anos 70 fundou o Teatro Vivo, com Estér Góes, e juntos produziram espetáculos na resistência à ditadura militar. Durante a década de 80 lançou-se como dramaturgo e escreveu peças como A Estrela Dalva e Lobo de Ray-Ban. Em 1993 funda o Teatro Promíscuo com o ator Elcio Nogueira Seixas. Ícone do tropicalismo, ficou imortalizado por sua atuação em O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, recebendo o reconhecimento da crítica nacional e internacional.

CENA ABERTA publicará os vídeos, às segundas, quartas, sextas-feiras e sábados. Agradecemos muitíssimo a todos e todas que puderam e quiseram responder ao nosso chamado. Nossa intenção é construir com essas vozes ora isoladas não só um coro, como também um registro, um documento crítico-afetivo sobre o presente.

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