Um Brasil em “Marcha à Ré” – Entrevista com o Teatro da Vertigem

No último dia 4 de Agosto, em plena pandemia e quando o Brasil estava prestes a alcançar o número trágico de 100 mil mortos pela Covid-19,  uma carreata fúnebre foi às ruas de São Paulo; mas uma carreata ao revés, andando para trás, percorrendo um trecho de um quilômetro e meio, que vai da Avenida Paulista ao cemitério da Consolação, na região central da cidade. Tocava-se uma sinfonia involuntária, feita com a música vinda da reprodução do som de respiradores mecânicos e monitores cardíacos.  Era a Marcha à ré,  convocada e organizada pelo Teatro da Vertigem. Envolveu  cerca de cem motoristas,  que participaram dirigindo seus automóveis para trás, em uma aventura-protesto que marcava posição contra a política do governo federal em torno da doença ao mesmo tempo em que chorava os milhares de mortos. 

Marcha à ré foi e é uma “Performance-filme” criada pelo Teatro da Vertigem em colaboração com o artista visual Nuno Ramos, comissionada pela 11° Bienal de Berlim e filmada por Eryk Rocha. Em exibição neste momento na Bienal, o curta-metragem será lançado no Brasil no final deste mês, durante o festival Porto Alegre em Cena. Nele será possível  ver os poucos mas fortes elementos cenográficos indicando, naquele dia, a morte como fenômeno que concentra um escopo comum à vida coletiva  no qual cabem muitas frentes: a da polarização em torno da conjuntura, a da retórica moral que a contorna e a da resposta em chave artística a este quadro, com evidente responsabilização do Estado brasileiro, identificado como agente principal de uma política do assassinato.

Os signos,  materiais e atitudes usados para a performação de Marcha à ré  foram pontuais mas contundentes. A carreata, por exemplo, é forma mais típica de manifesto de quem tende à direita e ali sofreu  significativa  apropriação: uma carreata tomada pela simbologia do andar para trás em um país onde, para muitos e especialmente agora, o lema positivista da “ordem” e do “progresso” volta a pautar as consciências. Os artistas e apoiadores da marcha, vestidos de branco e em máscaras, orientando o “des-sentido” do trânsito, assim como aquela dolorosa marcação sonora, caminharam para o cemitério da Consolação onde  um trompetista tocava o hino nacional do alto do pórtico de entrada, em notas também ao contrário. Dali, mesmo  em dado momento, distende-se  uma estampa em tecido remetendo à obra de Flávio de Carvalho, transgressor artista moderno brasileiro com o qual este trabalho dialoga. Na reprodução, a imagem da série trágica “Minha mãe morrendo”, em que Flávio retrata a figura da  mãe, levada pelo câncer.   

Nesta entrevista ao CENA ABERTA, os integrantes do Teatro da Vertigem – Antonio Araújo, Antonio Duran, Eliana Monteiro e Guilherme Bonfanti – falam sobre o percurso (e as mudanças de percurso) do projeto, desde o comissionamento pela Bienal até a realização nas ruas de São Paulo, bem como sobre as dificuldades logísticas, apoios e tensões durante o processo. Além disso, falam das posições do grupo  que motivaram a intervenção diante de um país em plena fratura – um capítulo novo entre as outras tantas convulsões históricas da nossa sociabilidade e uma nova síntese poética, que dá sequência a um percurso artístico singular – de observação e intervenção – que a companhia vem desenvolvendo há quase três décadas.   Antes da entrevista, disponibilizamos o teaser do filme de Eryk Rocha, já estreado em Berlim e logo mais no Brasil.

Veja a entrevista:

Marcha à Ré – Performance criada pelo Teatro da Vertigem em colaboração com Nuno Ramos, realizada em 04 de Agosto de 2020, em São Paulo

Ficha técnica da performance:

Antonio Araujo
Guilherme Bonfanti
Eliana Monteiro
Nuno Ramos
Eryk Rocha
Antonio Duran
Erico Theobaldo
Rachel Brumana
Renato Bolelli Rebouças

Ficha técnica do filme:

Direção: Eryk Rocha
Câmeras: Miguel Vassy, Janice D’Avila, Luisa Dalé, Junior Lopes
Edição: Renato Valone
Som: Rubén Valdes
Produção: Margarida Serrano
Apoio institucional: Goethe Institut, Bienal de Berlim e Festival Porto Alegre em Cena. 
Apoios:  Secretaria  Municipal de Cultura de São Paulo, Sp Cine, São Paulo Film Commission, Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes de São Paulo, Serviço Funerário do Município de São Paulo, CET-Companhia de Engenharia de Tráfego, Guarda Civil Metropolitana, Polícia Militar do Estado de S. Paulo, Corpo de Bombeiros da PMESP.

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