A respeito de “A verdade e um pouco mais”

A convite do Cena Aberta, a dramaturga Marcia Zanelatto escreveu uma “íntima carta pública” para a também dramaturga e companheira de viagem Vana Medeiros. A partir da peça “A verdade e um pouco mais” (2020), de Vana, Marcia resgata memórias pessoais e as cruza com reflexões sobre a condição da mulher no momento de funda disputa dos valores em que vivemos. Na peça, assim como no dia a dia do país e nas trajetórias íntimas, trata-se de uma jornada atravessada pela experiência do abuso, da violência e do trauma. Mas também do reconhecimento solidário. São palavras políticas no sentido mais forte que uma intimidade narrada pode adquirir: ao serem lançadas e abertas sem escamotear a dor, elas encontram poderosos pontos de contato com outras experiências.

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Leio sua peça, Vana, minha amiga Vana, querida companheira de viagem, e fiquei pensando que, não por acaso, nos tornamos amigas no Chile quando participávamos do Women Playwrights International, onde passamos dias vendo peças e ouvindo mulheres de muitas nacionalidades discorrerem sobre suas obras e vidas. Nada é por acaso.

Surfo sua peça, olhando com atenção a relação entre o mar do sentimento e o vento da estética. Que maré de delicado suspense você nos oferece! A onda formada pelo atrito entre a memória – sua e das atrizes colaboradoras – e a percepção sagaz que você tem do que seja a arte de contar histórias através do teatro me dá uma boa jornada sobre o que seja ser mulher.

A verdade é que vivemos, desde meninas, com medo. Ainda semana passada, na praia com minha irmã, Marise, repassamos momentos das nossas vidas em que fomos abusadas e não sabíamos. Melhor, momentos das nossas vidas em que estávamos sendo abusadas e não sabíamos. Lembrei ainda que cantávamos, nas domingueiras dançantes da nossa juventude, músicas que nos desqualificavam como gênero, como a crônica vexatória da banda Blitz que fazia a autenticação de um Roni Rústico, o dono de um beijo que quebrava dentes, em detrimento de uma Betty que, por não querer – sexo ou dentes quebrados? – se declarava frígida. Ela dizia “assim você me machuca”, como se fosse culpa dela ser machucada.

No ambiente de trabalho, certa vez um roteirista sênior, um senhor ex-famoso, um dia Prêmio Shell, mas hoje sem expressão como narrador do mundo, em plena mesa de trabalho, me tratou como histérica e me disse que eu estava tendo ciúmes do meu colega, um rapaz talentoso e nada sexy, ao menos para mim. Como eu não concordava com ele, ele me disse, entre dentes, que eu não era “assim” quando… ele me comia. Tornar uma mesa de roteiro um triângulo amoroso entre dois homens que se querem e uma mulher que atrapalha, era, além de gozo platônico de um suposto hétero, uma estratégia para me tornar vulnerável ao poder dele.

Mas piores do que os casos de assédio moral e sexual nas mesas de roteiros, sets, coxias e camarins, ou piores do que o que cantávamos nas inconscientes pistas de dança dos anos 80, pré-terceira onda feminista, são de fato os casos de abuso emocional, moral e sexual entre pais e filhas, entre maridos e esposas.

O estupro conjugal ainda passa despercebido pelas camas dos lares das “pessoas de bem”. Mulheres transam com seus maridos por assédio, por pena, por obrigação, por autocomiseração ou sob a ameaça de perder um teto sob o qual criar seus filhos.

Filhas continuam se sentindo com a obrigação cumprida – Vana, essa fala acabou comigo – depois de suportar uma sessão de tortura ministrada pelo querido papai.

As atrizes Marina Regis e Renata Alves em cena do espetáculo A verdade e um pouco mais, de Vana Medeiros.

A questão que você capitaneia nessa dramaturgia, Vana, me parece ser como reconstruir a memória quando ela teve que ser soterrada por uma questão de sobrevivência. É sabido que a principal função fisioquímica da memória é o esquecimento, pois não suportaríamos levantar da cama todos os dias se tivéssemos a lembrança de todos os nossos traumas. Então, como saber se realmente seu pai, seu primo ou seu tio apertou a sua buceta quando você tinha apenas quatro anos? Como validar a sensação de que seu pai, tio ou primo é um perigo para você, para sua mãe, irmãs e para todas as mulheres à sua volta, se você não sabe ao certo se tem um real motivo ou uma fantasia edípica? Como sobreviver a essa dúvida que, suponho, quase todas as mulheres têm?

Cogitar a hipótese de um abuso esquecido é o suficiente?

Porque se for ao menos um bom caminho, aí entra uma questão do teatro ancestral: a cena como cura.

Para seu ritual cênico de cura, você, amiga Vana, me parece usar habilmente as varetas de armar o suspense para através de um jogo de investigação cênica – como encenar uma peça on-line? Como fazer com que uma história que seja mais interessante do que a fofoca voluntária do Instagram ou as bizarrices da família Bolsonaro afundando impune um país inteiro, o nosso? –, trazer um outro jogo, o de investigação emocional – como saber se meu pai abusou de mim? O que ele matou em minha mãe que a levou à morte? Como se articula o segredo dos homens com a complacência das mulheres no ambiente familiar patriacal?

Acho sensacional essa articulação entre as duas investigações, Vana.

Ouvi uma vez o ex-gênio, atual fracassado moral, Roberto Alvim, em um momento de brilho, vociferar a pergunta “Quem foi o filho da puta que separou o conteúdo da forma?!” Veja que complexo, ainda sou grata a esse homem diabólico por essa frase que me esclareceu que todo conteúdo tem a forma na sua essência, nos cabe perscrutar até ver e aí, então, partir pro exercício da poética. Algo que você fez muito bem.

Por fim, Vaninha, a escolha da irmã e da atriz/personagem como vetores narrativos, me soa tão familiar! Porque é com minha irmã, com as atrizes e com minhas personagens femininas que tenho, ao longo de toda a minha vida, investigado as memórias perdidas dos traumas que uivam nas minhas noites sombrias sem que eu tenha consciência do que exatamente eles estão tratando. Evoé, querida Vana, é um bem ser sua contemporânea no ofício – justamente nesses tempos tão difíceis de narrar. A sua escrita ilumina a minha. As nossas escritas fêmeas – Shu, Silvinha, Grace, Jana, Klimeck, Renatinha, Ave, Julia, Bianchi, Dione Carlos e tantas outras do Brasil, Século XXI – se iluminam mutuamente. Vamos navegar!

Serviço
“A verdade e um pouco mais”, 8 sessões do espetáculo, aos sábados e às segundas-feiras, de 27 de fevereiro a 22 de março, às 20h (ingressos disponíveis para a segunda temporada no site do Sympla).

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Vana Medeiros
Elenco: Marina Regis e Renata Alves
Operação: Alessandro Fritzen
Trilha Sonora Original: Eduardo Virgílio
Arte e Diagramação: Isadora Xavier

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Cena Aberta – teatro, crítica e política das artes - um site de crítica cultural com foco no teatro e nas políticas públicas que envolvem as artes. Contato: cenaabertateatro@gmail.com

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