Resistir ao tempo morto

Crítica ao espetáculo Há dias que não morro, dirigido por José Roberto Jardim.

Por Rodrigo Nascimento

Paula Hemsi, Aline Olmos e Laíza Dantas em cena de Há dias que não morro. Foto: Victor Iemini.

 Há dias que não morro é um espetáculo que insiste em nos colocar diante da morte, nas suas mais variadas formas. Logo de início ela está ali, sólida. A peça não começa sem que antes tenhamos que saltar o corpo de um palhaço estendido na soleira da porta de entrada. O neon colorido que toma conta da antessala dá um brilho aterrorizador ao conjunto, instalando uma alegria postiça que contrasta com o corpo sem vida do saltimbanco. Entramos no teatro com a sensação de que será preciso não só encarar a morte, mas, de algum modo, ultrapassá-la.

O vestígio de vida circense no chão é um remanescente inevitável do espetáculo anterior, também encenado pela Academia de Palhaços (agora intitulada ultraVioletas_s), o Adeus, palhaços mortos, de 2016. Na peça, adaptação de José Roberto Jardim do texto do romeno Matéi Visniec, três palhaços aposentados se encontram na sala de espera para uma vaga de emprego. Estão vivos, mas o fim se impõe na forma do esquecimento, do abandono e do isolamento. Sem lirismo fácil, a cena é ocupada por memórias, reflexões sobre a arte e a existência – tudo filtrado por uma atmosfera que dá às personagens feições fantasmáticas. Entre tiradas ácidas e pequenas disputas, elas se mostram simultaneamente sombrias, risíveis e assustadoramente humanas.

Desde o século XIX, o palhaço sempre funcionou como uma figura atraente, constantemente retomada por poetas, pintores e atores. Oprimidos pelo trabalho desumanizado e pelas relações utilitárias no capitalismo, artistas de alguma forma se reconfortariam nas figuras do clown e do saltimbanco, criando por meios deles um autorretrato hiperbólico e deformante de si. O circo seria palco das vidas entregues de modo tão melancólico quanto livre a uma arte não interesseira. É assim na poesia de Baudelaire, nos quadros da fase azul de Picasso e no “Grande Circo Místico”, de Chico Buarque e Edu Lobo. No entanto, na montagem de Jardim, longe desta dimensão poética e dolorosa do palhaço-artista, o movimento corporal nada lírico e o jogo multimidiático repleto de cortes abruptos desenham uma encenação de feição sombria e irônica, ressaltando certa crueldade diante de vidas feitas não só de entrega à arte, mas de vaidades e autoengano.

Cena de Há dias que não morro. Foto: Victor Iemini.

Em Há dias que não morro, segunda parte dessa Trilogia da Morte, a companhia mantém a parceria com o diretor José Roberto Jardim e a morte continua sendo o fio que une os espetáculos.  De uma perspectiva clássica ou moderna, o tema sempre foi recorrente no teatro, seja em chave trágica, cômica ou dramática. Tem o peso da afronta ao Estado em Sófocles; tem ressonância ético-política nos assassinatos shakespereanos; resvala no absoluto simbólico nas peças de Maurice Maeterlinck… Aqui, no entanto, a morte surge em outra dimensão. No texto da jovem Paloma Franca Amorim, ela emerge onde aparentemente parece não estar: nos movimentos intensos, no colorido cotidiano da existência. Ela habita o negativo da vida em pequena escala: nos gestos e dias que se repetem e nas rotinas que nos aprisionam a uma existência de aparências. 

Três mulheres vivem em um jardim artificial onde não há a intromissão de qualquer ruído ou sujeira da existência. Mais do que uma história com personagens, o que se tem é uma coreografia, metonímia de uma vida ensaiada cujo roteiro não se altera. Qualquer subjetividade não interessa. Interessa a plasticidade da reprodução. A direção precisa de José Roberto Jardim e o trabalho físico excepcional das atrizes Aline Olmos, Luíza Dantas e Paula Hemsi traduzem a disposição dessas três figuras-bonecas em corpos domesticados e irretocáveis. Dão continuidade a um trabalho de pesquisa do grupo sobre as máscaras do ator e, assim como em “Adeus, palhaços mortos”, seus movimentos são minuciosos, e, por isso mesmo, estranhos e aflitivos. Não mais palhaços, mas manequins que miniaturizam em seus movimentos um dia a dia absurdo, sem acidentes, feito de conversas banais e saudações diárias ao sol. Ali, esperam que flores nasçam da grama verdíssima, mas sintética.

Como na primeira parte da trilogia, a cenografia do Estúdio Bijari continua sendo uma poderosa vídeo-instalação em forma de cubo. O conjunto se assemelha a uma pequena televisão, que transmite sóis, luas e arco-íris ao mesmo tempo em que aprisiona suas personagens em uma angustiante repetição do mesmo programa. Esse espaço restrito, esse aquário humano, torna-se uma caixa de ressonância, uma paisagem sonora, em que os sons, imagens e gestos em pequena escala dão a dimensão assustadora das vidas desperdiçadas, que mal podem ser captadas como vidas. Seriam aquelas mulheres meras bonecas de um show preparado por outros? Há desejo autêntico naquelas existências que são a reprodução irretocável de uma propaganda de TV? Não seria a rendição a uma rotina estável, previsível, fechada dentro dos mesmos movimentos uma verdadeira morte em vida?

Há dias que não morro. Foto: Paula Hemsi.

O semblante sempre otimista dessas bonecas, os diálogos de script calculável, os dias que começam e terminam dentro de uma colorida e assustadora previsibilidade (“Ah, que dia maravilhoso! / Another heavenly day!”) compõem uma felicidade de plástico. São resquícios dos Teletubbies dos anos 90, ou a reprodução sombria das vidas que hoje cabem nas incessantes fotos de Instagram. Ali não há a força da interação intersubjetiva que sempre caracterizou o drama – o diálogo dramático que tenciona, estimula conflitos, expõe vontades antagônicas… Falam entre si, mas é como se reproduzissem gravações. Ao mesmo tempo, não estão entregues à força reveladora do monólogo, pois não há universo íntimo a desvelar. Presas a uma rotina que é pura repetição, elas se furtam à própria possibilidade do encontro com o outro e consigo.

A repetição, diz Freud, flerta com a morte. Esse tempo morto, resultado de uma busca constante por estabilidade e segurança, traz o prazer de uma vida sob controle, mas nos reduz a um cotidiano sem desejos e sem riscos – uma vida sem experiência. E se para qualquer criança a repetição tem algo de prazeroso, pois é a realização de uma previsão ou o gozo diante da sensação de que o mundo parece possível de ser compreendido, aqui ela se torna a reafirmação do controle e da domesticação do corpo. São os corpos dóceis de que fala Foucault: obedientes, rotineiros, quietos e medicados – aqueles almejados por qualquer instituição social, seja ela a família, a fábrica, o escritório, a escola, a Igreja ou o Estado. Assim dóceis, reduzidas a ensinar umas às outras como passar o creme anti-rugas, como se alimentar de modo apropriado e como esconder o roxo no braço de uma possível violência doméstica, essas manequins tornam-se aprisionadas às novas prisões contemporâneas e, por consequência, destituídas de qualquer potência política.

Mas o mecanismo repetitivo da morte não é inabalável. Como na vida, sempre há um objeto, uma pessoa ou uma ideia que se impõem, desestabilizando a rotina que parecia plena de sentido. É a consciência de um outro mundo possível que transforma o aqui e o agora em objeto de dúvida. Nesse momento, as figuras contentes da encenação paulatinamente dão lugar a clowns decaídos, de pendor irresistivelmente beckettiano, que rompem com a vida padronizada e instalam o tempo resistente dos melancólicos.

Cena de Há dias que não morro. Foto: Gustavo Godoy.

A primeira a resistir, aquela que tão alegremente esperava uma flor nascer de um terreno impossível, torna-se o protótipo do melancólico – esse renegado que nossa sociedade insiste em taxar de doente e medicar à exaustão. Ela instala um grande curto-circuito em uma realidade que se anunciava perfeita. As projeções tornam-se estranhas, como um grande tilt. A equipe de produção invade a cena e retira um a um todos os componentes, pondo a nu diante do público a artificialidade dos recursos. As bonecas se tornam repentinamente muito próximas de nós, pois subitamente fora de um roteiro artificial. Em novo contexto – agora um palco nu – as falas repetidas ao longo de toda a peça se abrem ao frescor da descoberta. Estaria a realidade melhor ou pior? Ninguém sabe. Está apenas diferente. Só o mergulho na experiência, com todos os seus riscos, revelará o sentido de tudo.

Se tematicamente o espetáculo parece menos ambicioso que Adeus, palhaços mortos e se em muitos momentos combinações de movimentos parecem uma continuidade sem acréscimos da produção anterior, “Há dias que não morro” transforma toda a corporeidade daquelas manequins em crítica potente aos nossos atuais modos de vida. Com sua pantomima absurda, com sua cenografia e diálogos artificiais, a encenação foge a qualquer realismo e, provavelmente por isso mesmo, aciona camadas mais profundas de nossa própria realidade. Figuras estranhas, mas que falam sobre nós. Assim estrangeiras ao nosso mundo, indagam: reduziremos nossa existência à repetição tediosa de um tempo morto?

Há dias que não morro

De 02 de novembro a 2 de dezembro. De sábado a segunda (sábados e segundas às 21h e domingos às 19h). Galpão do Folias – Rua Ana Cintra, 213 – Santa Cecília – São Paulo. Informações: (11) 3361-2223. Ingressos: grátis – distribuídos uma hora antes de cada sessão.

FICHA TÉCNICA

Idealização: Academia de Palhaços & ultraVioleta_s; Direção e Concepção: Aline Olmos, José Roberto Jardim, Laíza Dantas e Paula Hemsi; Texto: Paloma Franca Amorim; Dramaturgia: Aline Olmos, Laíza Dantas, José Roberto Jardim, Paula Hemsi e Paloma Franca Amorim; Encenação: José Roberto Jardim; Elenco: Aline Olmos, Laíza Dantas e Paula Hemsi; Assistente de direção: Luna Venarusso; Cenografia: Bijari; Direção Musical e Trilha Sonora Original: Rafael Thomazini e Vinicius Scorza; Iluminação: Paula Hemsi; Figurino: Carolina Hovaguimiam; Modelista: Juliano Lopes; Visagismo: Leopoldo Pacheco; Cenotecnia: Leo Ceolin; Preparação Corporal: Maristela Estrela; Design de sistema de operação sincronizado: Laíza Dantas; Operação de Luz, Vídeo e Som: Murilo Gil e Vinicius Scorza; Técnico de Som: Murilo Gil; Técnica de Luz: Paula Hemsi; Técnica de Vídeo: Laíza Dantas; Técnica de Palco: Aline Olmos; Produção Executiva: Tetembua Dandara; Direção de Produção: ultraVioleta_s; Fotos: Paula Hemsi e Victor Iemini; Concepção: ultraVioleta_s e Coletivo Bijari; Assessoria Criativa: Fernando Velázquez.

About Rodrigo Alves do Nascimento

É crítico, tradutor, professor e educador popular. Tem graduação em Letras pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Há anos dedica-se à pesquisa dos teatros russo e brasileiro. É autor de "Tchékhov e os Palcos Brasileiros", publicado pela Editora Perspectiva em 2018.

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