Conflito e invisibilidade – britânicos do Quarantine convidam artistas brasileiros para residência na MITsp

Sarah Hunter,  Renny O’Shea  e Richard Gregory: “reciprocidade é vital”.

Por Kil Abreu, com colaboração de Maria Fernanda Vomero

Tradução e edição: Rodrigo Nascimento

Promover o encontro entre os que talvez jamais se encontrariam, a partir de temas como invisibilidade, contradição, diversidade e até mesmo dissidência ideológica. É o que o grupo britânico Quarantine vem provocar e vivenciar no Brasil durante a MITsp – Mostra internacional de teatro de São Paulo. Provavelmente interessada no momento de aporia do Brasil sob o comando conservador, com impasses que parecem insolúveis na área da convivência, a MIT vai oferecer residência  multidisciplinar envolvendo o grupo, artistas e não artistas, com apresentação pública ao final, em forma de “instalação performativa”.  A proposição lançada é a seguinte: “Olho no olho: quem consegue ser visível na São Paulo de hoje?”.

Neste momento estão sendo recebidas inscrições de artistas interessados, que podem vir de diversas áreas da criação, como artes cênicas, visuais, dança, cinema, música e outras (Serviço ao final da matéria).  O trabalho será desenvolvido em duas fases. Primeiro a companhia fará junto aos brasileiros o intercâmbio de técnicas teatrais aplicadas a situações de conflito.  Adiante será incorporado ao workshop  um segundo grupo, de não artistas, formado por pessoas que, na expectativa da organização da Mostra e do Quarantine, são “indivíduos normalmente distantes da cena artística e sem voz na sociedade, em especial aqueles cujos posicionamentos políticos e ideias costumam ser rejeitados no meio progressista”.  O ponto de chegada é o desenvolvimento de um trabalho comum a partir destas posições não alinhadas, procurando enfatizar não a interdição, mas a produtividade ética e política da divergência.

Invisibilidade

A curadora de ações pedagógicas da MITsp, Maria Fernanda Vomero, chama a atenção para o ineditismo da proposta e para outro aspecto saliente da residência, que vem na prática do grupo: “A proposta é inspirada no novo projeto que o Quarantine está desenvolvendo, mas tem uma conformação especial pelo fato de acontecer em São Paulo.  A participação de pessoas com posições ideológicas opostas entra na residência, mas a ideia é ainda mais ampla. Estamos seguindo a linha da invisibilidade. Invisibilidade em vários níveis, por conta da nossa desigualdade extrema e também por conta das nossas diferenças de experiência. Pessoas, por exemplo, que não vão ao teatro.  Pessoas que [no nosso ponto de vista] estão nessa zona cinzenta das diferenças socioculturais”.

Espaço Público e Vida Cotidiana

O Quarantine é um coletivo de artistas e produtores criado em 1998, com sede em Manchester, Inglaterra.  Interessado na investigação da vida cotidiana traduzida em ações mais aproximadas da performance, o núcleo duro do grupo trabalha constantemente com colaboradores vindos ou não das artes e em variadas circunstâncias, íntimas ou públicas. Na definição deles, trata-se de “um exercício contínuo de retratos em massa”, com “linha borrada entre artista, performer, participante e público”. As atuações acontecem em espaços e relações tradicionais mas, sobretudo, em situações e lugares não usuais, como festas de família, refeições compartilhadas, transmissões de rádio, ou “viagens no escuro para uma pessoa de cada vez”.  

O novo projeto do coletivo chama-se “12 last songs” (“As 12 últimas canções”) e nele os britânicos já investigam possibilidades para o trabalho cênico a partir das divergências. Diante desta trajetória informada, o CENA ABERTA  entrevistou  Richard Gregory, diretor artístico da Companhia, sobre a residência no Brasil, que será conduzida por ele e por Renny O’Shea, com assistência de  Sarah Hunter e Kate Daley.

Richard Gregory: entendimento sem negar as contradições

Cena Aberta: A residência na MITsp será uma atividade única, mas de alguma forma ligada à pesquisa do grupo e ao desenvolvimento de “12 Last Songs” (“As 12 últimas canções”), que convida as pessoas a um processo cujas atitudes e crenças parecem diferir das nossas. Você disse que previa que seria desafiador e potencialmente criaria conflitos. Por que você espera isso? Como você espera lidar com esses possíveis conflitos?

Richard Gregory: No processo e, frequentemente, na forma e no “resultado”, o trabalho do Quarantine é essencialmente dialógico. Em cada trabalho nós tentamos criar situações – apropriadas ao contexto – para uma conversa entre desconhecidos. Tentamos encontrar algum tropo familiar, a situação para um encontro, algo como dividir uma refeição ou envolver as pessoas em alguma tarefa cotidiana. Por exemplo: construir algo, aprender uma nova habilidade ou fazer uma encenação coletiva. Com frequência, como no dia a dia, o encontro cara a cara entre as pessoas é civilizado e respeitoso. A maioria de nós tem o instinto de buscar o que nos conecta. Isso é importante, útil e humano – mas pode ser limitante.  No dia a dia existe um espectro interessante no qual às vezes somos mais capazes de sermos honestos, de expressar diferença e dissenso, seja com aqueles próximos de nós, seja nas situações de distância segura oferecida pelas redes sociais – quando insultos são arremessados contra aqueles que nunca encontraremos pessoalmente. Claro que às vezes nossas relações mais próximas nos fazem acreditar que nos baseamos em pressupostos (compartilhados) a respeito de certos tópicos, a respeito da política etc., de modo que não os discutimos e até mesmo fazemos vista grossa para questões polêmicas. Em encontros diretos e íntimos com estranhos, tendemos a buscar aquilo que temos em comum – embora, é claro, estejamos simultaneamente conscientes do que nos divide, mesmo que não o mencionemos.

Em nossa residência na MIT – e consequentemente em nosso novo trabalho “12 Last Songs” – nós pretendemos criar situações  para levantar as questões que nos permitam ir além da simples polidez. Pretendemos explorar caminhos nos quais um território comum e uma atividade comum sirvam como meios de trazer as pessoas para perto, cara a cara, – aquelas que no dia a dia nunca se encontrariam – ou que talvez ao menos raramente teriam uma conversa produtiva. Discordâncias e conflitos podem ocorrer, é claro. Nós não buscamos isso a princípio, mas não tentaremos impedi-lo. Parece-nos que construir– nos termos de Chantal Mouffe – as circunstâncias de um pluralismo agonístico, é um modelo que nós devemos (urgentemente?) mobilizar para pensarmos em democracia, mas também em nossas vidas cotidianas e especificamente no meio das artes “liberais de esquerda”, no qual – pelo menos no Reino Unido e na Europa – nós agonizamos pensando em como alcançar pessoas que não se envolvem com o nosso trabalho, ao mesmo tempo em que seguimos não dispostos a acolher aqueles cujas opiniões e crenças possam diferir das nossas.

Respondemos à discordância e ao conflito por meio de recursos ainda mais humanos – por meio de mais conversa, por meio de mais estratégias de empoderamento de indivíduos e tentando garantir que todo mundo tenha espaço para discutir seu próprio caso. Ao mesmo tempo respeitando que outros também tenham o direito de fazê-lo. Somos cuidadosos em oferecer o suporte necessário para aqueles que podem ser mais vulneráveis. A noção de importância da ambivalência é crucial aqui – a ideia de que nós podemos recuar e avaliar a situação, manter as nuances, até mesmo as opiniões contraditórias, sem necessariamente incorrer em posições binárias. Estabeleceremos o quadro de referência – as regras da casa, se você preferir – com todos com quem trabalharemos, para que haja um entendimento comum sobre por que estamos aqui, o que almejamos e o que é aceitável.

CA: Pensando em seus trabalhos anteriores, como tem sido a experiência de reunir pessoas que normalmente não se encontrariam?

RG: É claro que se trata de um processo delicado e complexo. É vital ser aberto e humano para ser claro com todo mundo a respeito do que está acontecendo.

Um exemplo: ao longo dos últimos oito anos, nós temos conduzido uma vez por mês o projeto “No Such Thing” (“Nada disso”) em um Curry Café paquistanês chamado Kabana, no centro de Manchester. Consiste em “uma refeição em troca de uma conversa”. É um encontro efêmero entre duas pessoas desconhecidas. Compramos um almoço e você  conversa conosco. Sentamos ao redor de uma pequena mesa laminada. A conversa é motivada por um menu recheado de provocações. Nós comemos, conversamos, você sai. É isso.

As pessoas agendam por meio do nosso website ou nos contatam depois de verem um cartaz no café. Um bom número de pessoas que divide um almoço conosco são passantes, consumidores regulares – eles ouvem sobre o evento no dia mesmo ou o proprietário, Riz, os envia até nós, sempre tendo como ideia o almoço pago em troca de uma conversa. O tema muda todo mês – pode ser algo com o qual estejamos trabalhando ou um tópico que esteja no ar no momento.

O Kabana está localizado no coração do que é hoje o Northern Quarter, que já foi  conhecido como Distrito do Vestuário de Manchester.

“Nosso trabalho cria as circunstâncias para uma conversa entre estranhos. O encontro é, por um lado, estabelecido e estruturado. Mas a exposição de sua mecânica durante a realização convida a uma possível alteração desse relacionamento”. – Richard Gregory

O café tem todos os tipos de pessoas. Nós falamos com todo mundo. Trabalhadores das redondezas, dessa área desigual e rapidamente gentrificada: trabalhadores da construção civil, procuradores, carteiros, funcionários do escritório da Co-op HQ, designers de websites, músicos. Há mais homens que mulheres e a mistura étnica muda de acordo com o dia e a hora – ou talvez mesmo por acaso. Há vários consumidores paquistaneses. Na reforma feita recentemente – talvez um aceno do Kabana rumo à gentrificação? –, os banheiros foram movidos para o térreo, de modo que há mais pessoas portadoras de deficiência do que costumava haver. Todo mundo está fazendo a mesma coisa: comendo e falando ou não falando e comendo. Se eles estão lá comendo conosco então ambos estarão falando – este é o acordo.

“Nada disso” questiona e desnuda o modo de abordar. Tentamos garantir que o visitante não seja a performance e nem que a assista – queremos que ele performe junto. Não há documento nem gravação além da própria memória, pois isso afetaria a conversa. Se há truques, nós tentamos mostrar quais sejam.

Dissemos anteriormente que nosso trabalho cria as circunstâncias para uma conversa entre estranhos. O encontro é, por um lado, estabelecido e estruturado. Mas a exposição de sua mecânica durante a realização convida a uma possível alteração desse relacionamento. Há mais deslizamentos. O fluxo bidirecional com o resto de nosso trabalho começa com as maneiras pelas quais os moldes ou provocações agem como formas e estruturas dramatúrgicas. Aqui está o menu, o contexto, o espaço e o café em si.  “Nada disso” não é uma performance. É a noção de ambivalência de novo. Temos uma conversa em um café. Nós não nos conhecemos antes. Podemos muito bem nunca mais nos ver. Estamos fazendo o que o resto do café está fazendo. O que falamos provavelmente será esquecido. Às vezes a conversa flui. E às vezes é um trabalho chato e superficial, ou simplesmente um trabalho duro.

Conversamos até o curry ser comido e, então, sabemos que isso significa que o encontro acabou. Ficamos um momento, cumprimos o ritual de educação, apertamos as mãos. Você parte.

CA: Considerando o contexto de São Paulo e do Brasil hoje, quais são suas expectativas para a residência?

RG: É importante salientar que não somos experts no que está acontecendo em São Paulo e no Brasil. É claro que temos feito algumas pesquisas, mas estamos chegando como forasteiros, visitantes temporários. E, de acordo com nossa experiência, isso tem pontos fortes e positivos, pois não estamos enredados em nenhuma situação local. Os experts  são as pessoas que nós encontraremos e com as quais trabalharemos. Nosso trabalho é nos fazermos úteis e invisíveis. Queremos dividir um pouco da nossa abordagem de trabalho com outros artistas. Queremos aprender com suas experiências e metodologias – e essa atmosfera de reciprocidade é vital. Queremos experimentar a cidade e o país em um momento em que as mudanças e os desafios são visivelmente grandes e reais. Queremos encontrar e passar o tempo com uma gama de gente genuinamente diversa e ampla – artistas e não artistas. E nos alimentar de um pouco da humanidade do que – a distância, pelo menos – parece ser um lugar e um festival teatral extraordinários para passar um mês de nossas vidas.

RESIDÊNCIA QUARANTINE/SERVIÇO

Público: Artistas de diversas áreas (teatro, dança, música, artes visuais, cinema etc.)

Onde: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso, SP )

Inscrições Até 31 de janeiro. Mais informações: https://inscricoes.mitsp.org/residencia-artistica-com-o-grupo-ingles-quarantine/

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